sexta-feira, 6 de julho de 2007

Análise do Poema "Pós Tudo" de Augusto de Campos


por Robson Melo e Luciana Anselmo*

O poema “Pós-tudo”, de Augusto de Campos, é um poema visual que concentra na imagem toda a sua poeticidade e aborda a temática finissecular. Ele refere-se ao Pós-Modernismo em que, segundo Moriconi “nada mais de novo havia a fazer ou dizer, depois de um século inteiro de experimentações.” (p 97)
Com relação ao seu aspecto visual – o mais importante dentro desta poesia concretista - há o contraste do preto e do branco. Sabe-se que o preto é a ausência de todas as cores; o branco a presença de todas elas. O preto surge como pano de fundo no poema, sugerindo um vazio, ou até mesmo um esgotamento total ocasionado no século XX, é nesse vazio que o poema apresenta palavras em branco, sugerindo tudo o que já fora dito e experimentado no século XX, sugere ainda o tudo que é a palavra, sua força e representatividade, antes e pós tudo.
A disposição das palavras, também, nos revela muito, a primeira linha do poema apresenta uma única palavra, sugerindo um isolamento. Quando o autor começa, “quis mudar tudo”, ele refere-se ao início do movimento, por volta da década de 20, mais precisamente na Semana de Arte Moderna, em que a Literatura Brasileira aspirava uma identidade própria. Depois ele coloca “mudei tudo”, já referindo-se ao período dos anos 30 à 45 em que, de fato, essa identidade se consolidara e a produção literária no Brasil assumia um caráter genuinamente nacional, desvinculando-se do que se vinha fazendo anteriormente, onde os artistas utilizavam-se dos moldes e tendências européias. O mesmo ocorre com a última linha do poema, as palavras se referem ao “eu”, eu quis, eu mudo (transformar), é o poder de transformação da voz poética. A palavra “mudo” também pode fazer referência ao estado de mudez, de silêncio provocado pelos excessos do final do século, como se fosse uma afonia ocasionada pelos gritos.
A primeira palavra está situada no final da linha e a última palavra do poema está situada no início, um contraste interessante que faz com que o poema comece no final (da linha) e termine como se fosse começar, representando o que foi as duas últimas décadas do século XX, final de tudo (conturbado), e começo silencioso (adormecido).
A fonte da letra do poema causa um efeito bastante significante, insinua uma seqüência cíclica, principalmente se considerarmos as letras D, Q e O, ou ainda, seqüências que direcionam a um mesmo ponto como o X; as demais representam uma seqüência, constante e intensa, efeito causado pela espessura da fonte e por estar em caixa alta.
Uma outra seqüência interessante cabe à disposição das palavras no espaço do poema. A primeira linha, um isolamento, tudo se inicia com fatos isolados, seria a introdução; a segunda e a terceira linhas, o corpus em que tudo está em seu devido lugar, representam os limites, os extremos, os aspectos de definições de uma época, em que nada se mistura, as idéias que se divergem devem separar-se; na quarta linha há uma união de palavras, simbolizando o momento mais complexo da século XX, os excessos de experimentações, surgindo em contraposição às duas linhas anteriores, esta linha é o acumulo, aquelas são a separação; “Agora pós tudo”, aqui Augusto de Campos dirige-se à década de 80, período no qual não havia mais alguma característica inovadora, quando se trata de Literatura no Brasil, a idéia que se passa é de que “a fonte secou”, não existe um movimento artístico-literário que marque esse período. Na quinta linha , um neologismo criando por dois elementos, “ex” que é aquilo que não é mais somado com a palavra “tudo”. O poeta escreve “extudo”, que pode ser interpretado, à priori, de duas maneiras: a primeira “ex-tudo”, dando essa idéia de passado, a produção literária acabou, não há nada de novo, “tudo” ficou para trás; o emblemático do “nada”, revelando a inovação para tudo que já fora feito. Se formos pela fonética, temos “estudo”, dando a idéia de que agora só resta estudar a literatura, esses movimentos, analisá-los tomar ciência de suas importâncias.
Na sexta linha, uma seqüência da anterior, o mudo de mudez, “Mudo” como se a Literatura agora estivesse calada, tanto tempo teve caráter revolucionário, voz ativa e agora está estática, calada, completamente muda. A ausência de palavras, que pode, também se referir ao poder de transformação do “eu”, “eu mudo”, mostrando firmeza e tenacidade. As palavras e as letras surgem como caminhos que conduzem o texto e mostram o seu conteúdo.
Quanto ao aspecto conteudístico do texto, há uma relação de querer mudar e mudar convictamente, relevando as diversas formações visadas por uma época, no século XX, assim como a própria poesia concreta vem romper com as formas de poemas já existentes, o que faz da poesia de Augusto de Campos uma metalinguagem da poesia concreta, pois aborda a ruptura ocasionada pela “quebra” de pensamento com relação à forma poética de tudo o que já fora utilizado.

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*Graduandos do Curso de Letras da Universidade Federal do Pará, Campus de Bragança.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

• MORICONI, Ítalo. Como e por que ler a poesia brasileira do século XX. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p 27

• http://www2.uol.com.br/augustodecampos/home.htm

4 comentários:

Ciça disse...

Caro, explique-me, não seria a cor branca a ausencia de cores e preto o acumulo de diversas cores?

Lili disse...

Depende, para a luz: branco todas as cores. Mas se for para produzir a cor na impressão, então branco ausencia de cores

Lili disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Robson Melo disse...

Minhas caras. A Física explica o que eu digo no texto. É só dar uma revisadinha nas aulas de Óptica. Se preferirem, as aulas de Artes, em que há os testes com as cores.