sábado, 7 de julho de 2007

Simbolismo - Na França, em Portugal e no Brasil

por Robson Melo, Jacirene Souza e Graça Damasceno*

1 Introdução


“Nomear um objeto é suprimir três quartos do prazer do poema, que consiste em ir adivinhando pouco a pouco: sugerir, eis o sonho; é a perfeita utilização desse mistério que constitui o símbolo: evocar pouco a pouco um objeto para mostrar um estado de alma, ou inversamente, escolher um objeto e extrair dele um estado de alma, através de uma série de adivinhas”.
(Stéphane Mallarmé, poeta simbolista francês)

O simbolismo floresceu, na Europa, nos anos 80 e 90 do século passado. Na mesma em que os pintores impressionistas iniciavam a diluição dos contornos dos objetos nos jogos de luz, os poetas simbolistas renunciavam à tradução da forma fixa do objeto em favor do ritmo do dever, da fugacidade do momento. Buscavam a expressão de alma que escapa a uma forma definida e não é abordada por um caminho direto.

2 Na França: Berço do Simbolismo

Nas últimas duas décadas do século XIX, a ciência, até há pouco, “dona da verdade”, passou a ser questionada. Os intelectuais experimentavam um forte desencanto, pois a ciência, que a tudo enquadrava em uma forçada relação de “causa-efeito”, mostrava-se impotente, deixando intocadas as grandes questões da vida, que continuavam um profundo mistério. É exatamente esse mistério que seduziu os filósofos e artistas da época, na busca, muitas vezes, de uma explicação para as manifestações do nosso mundo interior. Nesse mesmo período o continente europeu vive uma grande depressão, fase de intranqüilidade, na burguesia, quanto aos rumos da economia que começa a estagnar-se depois de um triunfal progresso.
Desprezando a ciência e a técnica como componentes desse mundo burguês, surge, na França, a estética simbolista, valorizando a intuição pessoal e a liberdade imaginativa como forma de conhecimento. É a reação à impassibilidade e à rigidez das fórmulas parnasianas e, secundariamente, à crueza do romance naturalista. No plano social e filosófico, constitui uma réplica ao positivismo científico-mecanicista e ao realismo, objetivo que dominou a segunda metade do século XIX. Também foi chamado Simbolismo o movimento surgido à mesma época na pintura, como reação ao impressionismo e ao naturalismo.
O momento precursor da nova estética literária foi com a publicação de As flores do mal, livro do poeta francês Charles Baudelaire, em 1857. Sua influência foi de fundamental importância pela transformação da vida na grande cidade em tema literário e pelo rompimento dos limites morais impostos aos artistas. Coube a Baudelaire a divulgação de uma mensagem que desvendava as angústias do homem desacreditado dos deuses e mitos, o que resultava em um comportamento movido por impulsos de uma trágica liberdade e pelo individualismo.
Ao lado de Baudelaire estão Arthur Rimbaud, Paul Verlaine e Stephane Mallarmé, paradigmas do Simbolismo. A partir desses poetas, a poesia ocidental vive em que a objetividade dos realistas, a impassibilidade e o tom escultural dos parnasianos cedem ligar à evocação sugestiva e musical. Em lugar da exatidão, o vago. A palavra sofre um esvaziamento de seu conteúdo, valendo pela sugestão verbal. Essa experiência é anterior ao próprio Baudelaire: a queda da correspondência com o natural, na poesia, começa com Edgar Allan Poe, como se pode observar no seu conhecido poema “O corvo”.
O núcleo do Simbolismo francês residiu, sem dúvida, na obra de Stephane Mallarmé, consumado artista do verso, cujas potencialidades rítmicas e musicais explorou a exaustão. Deu início também ao hermetismo, a poesia pura da chamada “torre de marfim”, em torno da qual se reuniam os evasionistas e os experimentalistas do verso e verbo.
O símbolo para esta nova arte poética, o Simbolismo, desprende-se de qualquer carga lógica. Uma das singularidades desta poesia seria sua conexão com a música, justamente porque ela concentra a capacidade de sugerir as mais variadas emoções. Criou-se, portanto, uma língua-música que consistiria na harmonização dessas duas formas de arte.
As manifestações dos poetas contrários ao Realismo-Naturalismo e ao Parnasianismo foram denominadas “decadismo” ou “decadentismo”. Esse nome traduz claramente a noção básica que os orientava: a de que a civilização burguesa chegara a tal ponto de decadência, de dissolução moral e espiritual, que a vida se transformara num grande mal-estar, suportável apenas pelos gozos sensuais e pela fruição dos prazeres mais forte. “A sociedade se desagrega sob ação corrosiva de uma civilização deliqüescente. O homem moderno é um insensível.” – afirma o Manifesto decadente.

2.1 O significado e definição de Símbolo

Para o poeta simbolista, a importância do símbolo residirá no fato de que ele será o elo entre a realidade física e a sensorial. Isso é importante porque o simbolista não estará preocupado em descrever a realidade, mas em senti-la, em sugeri-la, em idealizá-la. É aí que o símbolo, com toda a sua riqueza sugestiva, pode funcionar como mediador entre a realidade material e a realidade onírica do poeta, uma realidade individualista, vaga, misteriosa. O símbolo, nesse aspecto, será um reflexo das meditações filosóficas, espirituais, abstração inerentes ao caráter intimista do poeta. É a forma como ele vê e concebe a realidade: buscando sua face mística, encantadora, surreal. É com o símbolo que o poeta pode mostrar sua visão de mundo, despertar em seus interlocutores as sensações mágicas que abstrai da realidade. É através do símbolo que o poeta pode condensar duas realidades: o mundo real e o mundo dos sonhos. Ao construir o seu poema, o simbolista poderá abordar vários temas todos inter-relacionados, mas é através do símbolo que conseguirá resolver como homem e como artista.

3 O Simbolismo em Portugal (1890-1915)

A poesia simbolista tem relação com a recuperação de alguns valores não-materiais após a década de 1870.
Em Portugal registrou-se pelo menos um grande momento de crise econômica nos anos de 90 e 91, assinalado pelo descrédito do povo em relação à Monarquia. È nessa conjuntura que surge o grupo de escritores conhecido como “Os Vencidos da Vida”, denominação reveladora do espírito depressivo que se viveu na época. Desse grupo de curta duração, faziam parte escritores realistas, como Eça de Queirós e Guerra Junqueiro.
Este período apresenta algumas particularidades. Além da poesia ligada às características gerais do movimento, há correntes voltadas para as tradições históricas e culturais do país, responsável por um forte sentido nacionalista, concentrado, principalmente, no repúdio à Inglaterra e na valorização do passado navegador e imperial português. Daí a Literatura adotar formas e temas tradicionais:
O NEOGARRETISMO pregava a retomada da orientação poética de Almeida Garrett, com a valorização da tradição poética popular e a coloquialização da linguagem poética;
O SAUDOSISMO procurava definir o caráter nacional do homem português tomando como sua essência o sentimento da saudade.

3.1 Principais representantes do Simbolismo em Portugal

Eugênio de Castro e Almeida
Antonio Nobre



3.1.1 Eugênio de Castro

Eugênio de Castro e Almeida nasceu em Coimbra, em 1869. Formado em Letras, ingressou na carreira diplomática, mas logo desistiu dela e passou a exercer o magistério. Viveu algum tempo em Paris, onde entrou em contato com o simbolismo francês. De volta a Portugal, dirigiu o grupo de revista Os Insubmissos. Morreu em 1944, no auge da fama.
Para a estética simbolista, a importância de Eugênio reside na polêmica que causou ao publicar “Oaristos”, obra que inaugurou o Simbolismo português. O escândalo causado pela audácia formal desse livro permitiu a divulgação da nova estética e a consagração de seu autor como o principal difusor do movimento em Portugal.
O texto, a seguir, é parte de um longo poema extraído do livro que deu início ao Simbolismo português, “Oaristos”.

Um sonho

Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O Sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,

Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o Sol, o celestial girassol, esmorece,
Deixemos estes sons tam serenos e amenos,
Fujamos, Flor ! à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...



3.1.2 Antônio Nobre

Nasceu no Porto, em 1867. Após duas reprovações sucessivas no curso de Direito em Coimbra, mudou-se para Paris, onde freqüentou cursos livres. Ingressou na carreira diplomática ao voltar para Portugal, mas já com os sinais da tuberculose que o mataria em 1900.
Apresenta em sua poesia a memória como forma de escape ou fuga de um presente de infelicidade e inadaptação. Linguagem coloquial e musicalidade obtidas, principalmente, pela exploração de recursos presentes na poesia popular são as características formais mais evidentes de Nobre, que em sua ida para a França sofreu influência do Simbolismo transportando para suas obras, sob a inspiração de Paul Verlaine. Publicou em vida o volume “Só” (1892), motivo de sua celebridade, postumamente surgiram Despedidas e Primeiros Versos, além de vários volumes de Correspondência.

Menino e moço

Tombou da haste a flor da minha infância alada.
Murchou na jarra de oiro o púdico jasmim:
Voou aos altos Céus a pomba enamorada
Que dantes estendia as asas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo com torres de marfim !

Mas, hoje, as pombas de oiro, as aves da minha infância,
Que me enchiam de Lua o coração, outrora,
Partiram e no Céu evolam-se, a distância !

Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na asa do Vento os ais que a alma chora,
Elas, porém, Senhor ! elas não voltam mais...
(Só, Antonio Nobre)

Considera-se que o Simbolismo em Portugal, assim como no Brasil, tenha sido uma estética importada da França; argumenta-se que os países mais afastados da luta imediata pelos mercados consumidores ou fornecedores de matéria-prima, não sentindo na própria pele a aproximação de um grande conflito, não apresentavam o clima ideal para o desenvolvimento dessa escola. Verdade é que Portugal vive, pelo menos a luta imperialista na África: 1890 é o ano do Ultimato Inglês, que mergulhou a sociedade portuguesa num clima de frustração e pessimismo. É essa situação que vem alimentar o saudosismo nacionalista e uma mentalidade colonialista.

4 O Simbolismo no Brasil (1893)

No Brasil, o primeiro manifesto simbolista foi publicado em 1891, no jornal Folha Popular, que passa a publicar artigos e textos de poetas como Emiliano Perneta (1866-1921) e Cruz e Sousa. Este lança, em 1893, as obras “Missal” (na prosa) e “Broqueis” (na poesia), em que aborda mistérios da vida e da morte com uma linguagem rica, marcada pela musicalidade, iniciando, assim, o movimento simbolista no Brasil.
Foi um movimento que quase passou despercebido, pois foi sufocado pelo Parnasianismo que ainda vigorava com muito prestígio. Em se tratando da relação Parnasianismo x Simbolismo, nota-se que um estilo é a negação do outro porque ambos são resultados de visões de mundo antagônicas, contraditórias. Enquanto o simbolista mergulha no seu mundo interior, buscando sua essência, o parnasianismo irá voltar-se unicamente para o exterior, ou melhor, para a descrição desse mundo exterior, o que nem sempre logra conseguir, acabando, em alguns casos, por trair seu próprio receituário.

4.1 Características do Simbolismo

A poesia simbolista irá se voltar para o interior, buscando, através de uma linguagem enigmática, colorida e vibrante, sugerir simbolicamente as angústias do homem. Pelo seu aspecto enigmático, místico (até religioso) não estará preocupada com a descrição do mundo e sim com a sugestão de realidades (materiais ou abstratas) que compõem esse mundo. Para o simbolista a ciência não é tão determinante assim, dada a sua impotência ante as coisas materiais que estão além dos olhos. É uma poesia que não está preocupada em ser vista, mas em ser sentida. Para tanto, os poetas simbolistas irão valer-se dos símbolos (assim como os parnasianos se valeram da forma) para conseguir esse efeito em seus interlocutores, símbolos que representem coisas, seres, sensações, idéias e até filosofias. Irão valer-se também da linguagem para ampliar seus meios de sintonia com o leitor. É comum que seus versos sejam vibrantes, musicalizados, valorizando o aspecto rítmico e a riqueza proporcionada pela pontuação.
A musicalidade, traço de destaque na poesia simbolista, é um efeito criado a partir do uso das figuras de som ou de harmonia. No texto elas produzem efeitos de ritmo, cadência, constituindo o “fundo orquestral” de todo poema. O Simbolismo adotou a metáfora como uma importante estratégia da linguagem para se alcançar o insondável, o nebuloso, o místico. Ela é concebida como a célula germinal da poesia e responsável pela riqueza das imagens de um poema simbolista.

4.1.2 Principais características do Simbolismo – Em resumo


Sugestão
Musicalidade
Sinestesia
Aliteração e assonância
Misticismo
Nebulosidade
Hermetismo
Conhecimento ilógico e intuitivo
Sonho, fantasia
Busca da essência
Subjetivismo
Cromatismo (valorização das cores)


4.2 Principais representantes do Simbolismo no Brasil

Cruz e Sousa
Alphonsus de Guimaraens


4.2.1 Cruz e Sousa

João da Cruz e Sousa nasceu em Florianópolis (SC) em 1861. filho de escravos alforriados e protegido dos antigos proprietários de seus pais, recebeu uma educação escolar primorosa.
Depois de um curto período no Rio Grande do Sul, chegou ao Rio de Janeiro, onde se fixaria para sempre. Foi lá que começou no jornalismo e na vida literária. Conheceu Gavita, com quem se casaria. A mulher enlouqueceu em 1896, sendo cuidada pelo próprio poeta, em casa. Vários poemas de Cruz e Sousa tematizam a loucura.
Quando morreu, de tuberculose, tinha 37 anos (1898) e era funcionário da estrada de ferro Central do Brasil.
A obra de Cruz e Sousa, afora alguns inéditos de importância mínima, se compreendia nos seguintes volumes: “Missal” e “Broqueis”, publicados em 1893, únicos livros aparecidos ainda em vida do poeta; depois de sua morte, por diligência de amigos, principalmente de Nestor Victor, vieram a lume: “Evocações”, prosa, em 1898; “Faróis”, poemas, em 1900; “Últimos sonetos”, em 1905.
O poema Antífona é o que abre o livro “Broqueis” e equivale a uma “profissão-de-fé”, a um manifesto da estética simbolista. Quase todas as características do Simbolismo estão presentes nele:


Antífona

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
de luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...

Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
e dolências de lírios e de rosas...

Indefiníveis músicas supremas,
harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,
surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
sutis e suaves, mórbidos, radiantes...

Infinitos espíritos dispersos,
inefáveis, edênicos, aéreos,
fecundai o Mistério destes versos
com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades
que fujam, que na Estrofe se levantem
e as emoções, todas as castidades
da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros
fecunde e inflame a rima clara e ardente...
Que brilhe a correção dos alabastros
sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça
de carnes de mulher, delicadeza...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
do Éter nas róseas e áureas correntezas...

Cristais diluídos de clarões álacres,
desejos, vibrações, ânsias, alentos,
fulvas vitórias, triunfamentos acres,
os mais estranhos estremecimentos...

Flores negras do tédio e flores vagas
de amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
em sangue, aberta, escorrendo em rios...

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
nos turbilhões quiméricos do Sonho,
passe, cantando, ante o perfil medonho
e o tropel cabalístico da Morte...


Siderações

Para as Estrelas de cristais gelados
as ânsias e os desejos vão subindo,
galgando azuis e siderais noivados,
de nuvens brancas e amplidão vestindo...

Num cortejo de cânticos alados
os arcanjos, as cítaras ferindo,
passam, das vestes nos troféus prateados,
as asas de ouro finamente abrindo...

Dos etéreos turíbulos de neve
claro incenso aromal, límpido e leve,
ondas nevoentas de Visões levanta...

E as ânsias e os desejos infinitos
vão com os arcanjos formulando ritos
de Eternidades que nos Astros canta...


Acrobata da dor


Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d’aço...

e embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

4.2.2 Alphonsus de Guimaraens

Nasceu em Ouro Preto (MG). Seu nome verdadeiro: Afonso Henriques da Costa Guimarães. Ingressou na escola de minas, com o objetivo de estudar engenharia. Nessa época, morreu-lhe a noiva – Constança, filha de Bernardo Guimarães - perda de que o poeta parece nunca ter-se recuperado.
Veio para São Paulo, onde iniciou o curso de Direito que concluiria em Minas. Em 1906 foi nomeado juiz na cidade de Mariana (MG). Lá casou, teve quinze filhos, e permaneceu até sua morte, em 1921.
A obra de Alphonsus de Guimaraens recupera muitos temas característicos do Romantismo, como o amor espiritualizado, a evasão, a religiosidade e a morte. Amor e morte, em resumo, são os dois pólos de sua preocupação como escritor. em sua poesia não há, como na de Cruz e Sousa, lugar para o erotismo – a mulher é divinizada, comparada à Virgem Maria.
A morte da noiva é um motivo recorrente em sua poesia como no fragmento:

XXIV
“Mortos os beijos nossos
Como eu me sinto só...
Ah! cobre a cinza fria dos teus ossos
Um chão de cinza e pó.

Anjo da minha guarda,
De novo ao mundo vem!
que céu tão triste, de uma cor tão parda...
É cinza e pó também.”
Dona Mística, Alphonsus de Guimaraens

Lirismo Místico:

VII
Primeira Dor
Em teu louvor, Senhora, estes meus versos,
e a minha Alma aos teus pés para cantar-te.
E os meus olhos mortais, em dor imersos,
Para seguir-te o vulto em toda a parte.

Tu que habitas os brancos universos,
Envolve-me de luz para adorar-te,
Pois evitando os corações perversos
Todo o meu ser para o teu seio parte.

Que é necessário para que eu resuma
As Sete Dores dos teus olhos calmos?
Fé, Esperança, Caridade, em suma.

Que chegue em breve o passo derradeiro:
Oh! dá-me para o corpo os Sete Palmos,
Para a Alma, que não morre, o Céu inteiro!

Setenário das Dores de Nossa Senhora, Alphonsus de Guimaraens





Poesia Noturna:


Ismália
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Diferente de Cruz e Sousa, que se caracteriza por uma fúria verbal e por suas enumerações católicas, a “noturnidade” para Alphonsus de Guimaraens não é trágica, abismal; ao contrário, significa e contém paz, comunicabilidade celestial e nostalgia. Como poeta essencialmente lírico, contribuiu para desmistificar o abuso do tom declamatório e do floreado estilístico que encontramos na poesia parnasiana.

5 Considerações finais

Os simbolistas ficaram caracterizados pela excentricidade, muitas vezes afetada, para acentuar sua distinção do vulgo, voltado ao que é material e imediato. Ao poeta estava reservado o espiritual, o místico e o não-consciente.
Em síntese, o poeta simbolista caracteriza-se pela concepção mística do mundo; pelo interesse no particular e no individual, em ligar do geral que interessava aos realistas e parnasianos; pelo escapismo em que se aliena da sociedade contemporânea; pelo conhecimento ilógico e intuitivo; pela valorização da arte pela arte; pela utilização de via associativa.

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*Graduandos do Curso de Letras na Universidade Federal do Pará, Campus de Bragança

Referências Bibliográficas

FARACO & MOURA. Língua e literatura: 3ª ed. 2º grau. São Paulo: Ática, 2000.
INFANTE, Ulisses. Curso de literatura de língua portuguesa: volume único: Scipione, 2001.
NICOLA, José de. Língua, literatura e redação: vol.2. São Paulo: Scipione, 1993.
ORNELA, Paulo. “Literatura Brasileira” In: Caderno de atividades – Sistema de Ensino Universo: Belém, 2003.
Sistema de Ensino Positivo. Língua Portuguesa / Literatura: Ensino Médio. Curitiba: COPYRIGHT 2001.

Fontes Eletrônicas

http://faroldasletras.no.sapo.pt/simbolismo.htm
http://orbita.starmedia.com/~stargate2/simboli.htm

http://www.artesbr.hpg.ig.com.br/Educacao/11/interna_hpg9.html

robsonh_melo@yahoo.com.br

2 comentários:

pandora disse...

Muito bom esse texto. Com uma linguagem clara e objetiva, você conseguiu elencar as principais características do Simbolismo e também de seus autores. Achei genial a comparação que fez no início entre o Simbolismo e o símbolo

ANA PAULA disse...

realmente esse texto foi muito claro e objetivo gostei do modo
que foi elaborado...
parabéns